NOVA EXCLUSÃO SOCIAL

Neste ensaio exponho alguns princípios sobre a nova exclusão social, concluindo-se que o aparecimento dos novos excluídos é o sinal mais convincente de que a temática social mudou de essência. Alerto de como a forma de desenvolvimento e as suas alterações recentes poderão transformar o “novo pobre” no excluído necessário que contribui com o seu rendimento para a sustentação da máquina do estado, e o “velho pobre” no excluído perigoso desnecessário do ponto de vista da economia. Processo em que o “novo pobre” tende a transformar-se no “novo velho pobre” e a herdar toda a condição social do “velho pobre”. Uma orientação que poderá ser desviada, se a politica social for retomada noutros termos, que se reveja no individuo e não tão somente nos números.

Este ensaio resulta do anterior sobre a Nova Pobreza e é o desenvolvimento de um dos seus pontos – A Nova Pobreza versus A Nova Exclusão Social.

INTRODUÇÃO

Exponho neste ensaio alguns princípios da minha investigação acerca da nova exclusão social. Faço-o de maneira sucinta, num conjunto de conjeturas, mais ou menos desenvolvidas, e resumo os resultados a que cheguei, até ao corrente ponto da minha investigação, sob a forma de hipóteses. Traço uma problemática de pesquisa, pois os resultados estão vivos e mutam, permitindo avançar nessa direção.

Convido o leitor a outro texto de minha autoria no qual é iniciado o desenvolvimento da temática que é no entanto prescindível para o entendimento do que se apresenta. (Quid Novi? – nº 1 / vol. II, 97-107, A Nova Pobreza, 2013)

A temática da injustiça social, na sua atual forma, é contemporânea ao processo de evolução da sociedade moderna entre os séculos XVII e XVIII. Este tema de estudo, e debate entre sociólogos e filósofos desde aquela época, desvanece e ressurge sempre que aparecem novos fatores a influenciar o normal curso da história. Este ressurgimento veste-se sempre com a moda dos tempos e marcando por exemplo a Europa do século XIX com a revolução industrial.

Em Portugal o tema tem de igual modo contribuído para a nossa identidade com a transformação da sociedade desde o pós 25 de Abril.

A HISTÓRIA DO CONCEITO

A invenção do termo exclusão social é atribuído a Rene Lenoir, na altura secretária de Estado da Ação Social no governo de Chirac, que publicou Les Exclus: Un Francais sur dix, (Os excluídos: Um francês em cada dez), 1974. Os excluídos de Lenoir incluíam uma larga variedade de indivíduos, não só os pobres, mas também deficientes, suicidas, pessoas idosas, crianças maltratadas, consumidores de substâncias, etc. O termo ganhou popularidade durante os anos 80, um período de crise económica e de restruturação como o atual, a crise do estado social e das políticas sociais. O termo foi utilizado para referir os diversos tipos de desvantagem social, relacionados com os novos problemas sociais em evolução, tais como o desemprego, fundação de ghettos e mudanças no modo de vida das famílias. O velho estado previdência era incapaz de resolver estes problemas e dispararam o desenvolvimento de novas políticas sociais.

POBREZA, EXCLUSÃO E DESIGUALDADE

O cidadão comum baralha os termos principais da temática da injustiça social: pobreza, exclusão e desigualdade.

A pobreza significa a condição em que se encontram indivíduos de uma determinada sociedade sem recurso financeiro suficiente para viver condignamente, ou então, que não têm as condições básicas de vida mínimas. As definições de vida digna e condições básicas, estabelecem, sempre, definições sociais e históricas, alternando-se no tempo. Abranches (1985) fala de pobreza como a “destituição material”.

O conceito de desigualdade social alude, como é sabido, à distribuição diferenciada da riqueza produzida ou detida por uma parte da sociedade.

Embora vizinhos, os termos desigualdade e pobreza são claramente distintos, não implicando um necessariamente o outro. Logo, um país pode ter uma desmedida desigualdade na distribuição da sua riqueza sem que hajam pobres. Ou no entanto pode ter uma diferença na distribuição da riqueza, tendo grande parte dos seus indivíduos na condição de pobreza. Claro que aqui utiliza-se o termo de pobreza absoluta e não relativa. De forma clara, indivíduos excluídos socialmente poderão não se encontrar numa situação de pobreza mas por outro lado a pobreza representa uma situação de exclusão pois as pessoas pobres são excluídas da participação na vida social, económica e política.

Estes dois conceitos são tão diferentes entre si como do conceito de exclusão social. Este último está mais próximo do sinal de rutura do vínculo social. Por semelhança, também se encontra próximo do conceito de estigma. Neste caso a diferença reside na ocorrência de que o excluído não precisa de cometer nenhuma transgressão sendo-lhe atribuída essa condição pelo exterior envolvente, sem que o mesmo tenha contribuído direta ou indiretamente para o facto.

Do ponto de vista de Durkheim, a exclusão social é um dos efeitos secundários do processo de rutura dos laços de solidariedade propícios à sociedade moderna, algumas vezes substituídos por laços de solidariedade tradicional. Tal como referi no meu anterior ensaio, esses laços apenas satisfazem as necessidades básicas de vida do individuo não promovendo a sua vida para que saia dessa situação. A sociologia do quotidiano (Maffesoli, 1991), tenta desenvolver sob a ideia de socialidade, laços de “solidariedade mecânica” que revezam os laços de “solidariedade orgânica” em vias de fragmentação. Princípios comunitários e valores simbólicos são lançados com a intenção de suprimir vazios criados pela maneira como se realiza o desmembramento da coesão social. Ambas as teorias contêm uma grandeza simbólica – escola interacionista (Goffman, 1975), e uma grandeza material, defeito da coesão social global. Assim, a exclusão acontece através da rutura dos vínculos sociais. Xiberras (1993) assinalará a presença de uma rutura com três ligações: individuais, comunitários e sociais. Tal como se a exclusão fosse numa direção de consecutivas e crescentes ruturas. Conceitos que se relacionam com Castels que se debruçará sobre os diferentes caminhos de exclusão no meio urbano (1991).

Os aspetos do termo exclusão

O termo exclusão social diz respeito ao ato de excluir, já o conceito sociológico, mais abrangente, reporta-se a um processo social de intolerância ou rejeição. Ou seja, uma representação que tem obstáculos em reconhecer no outro individuo direitos que lhes são inerentes. Assim o excluído rompe o vínculo social, desenvolvendo vínculos comunitários particulares, como forma de sobrevivência na sociedade. São vestígios de uma coesão social dividida ou da variedade de princípios de solidariedade num mesmo espaço social.

Existem três formas, do ponto de vista sociológico, do termo exclusão social. O primeiro já descrito acima, é a conceção mais generalizada. Assim, o conceito de exclusão social aproxima-se dos de discriminação de qualquer ordem, seja racial, sexual, religiosa, étnica, ou seja, a discriminação vista como uma forma de exclusão social. Ciganos, criminosos, toxicodependentes, etc., como grupos sociais excluídos, que não deixam de participar na vida social, mas de maneiras muito particulares de socialização. Apesar de não estarem excluídos de direitos, as suas diversidades não são aceites nem toleradas. Levam então à confusão com grupos de estigma ou desviantes.

Na segunda forma, o não reconhecimento do individuo manifesta-se numa visível exclusão de direitos.

Estes grupos sociais sem uma integração no mundo do trabalho, não têm, por consequência, as condições mínimas de vida exigidas. Esta desintegração gera o efeito de não-inserção social. Paugam cataloga-os de “desfavorecidos” (1992), e Castels denomina-os de “desfiliados” (1991). Acabam por ser confundidos com os “novos pobres”. Para além de efeitos de discriminação sofrem também da exclusão de direitos. Catalogados como os anteriores, pelas razões explanadas no meu ensaio sobre a Nova Pobreza, sofrem o processo exclusivo de não integrarem o mundo dos direitos ou dele serem escorraçados, total ou parcialmente.

A terceira interpretação é nada mais nada menos que a Nova Exclusão. Aqui o não-reconhecimento ultrapassa a negação ou rejeição de direitos. Inclui-se num “recusar do espaço da obtenção de direitos” (Hannah Arendt). Este grupo social tende a “não ter direito a ter direitos” anteriormente adquiridos, conseguido, através da imposição de medidas governativas, do Orçamento Geral do Estado, com retroatividade, que de uma forma ou de outra contrariaria a Lei Fundamental. Sem serem reconhecidos como tal, a tendência é exclui-los diferenciadamente.

Colocada assim a temática, atualmente ocorre exclusão social – Nova Exclusão – sem que para isso exista necessariamente desigualdade social (divisão distinta da riqueza). Tal como também não é preciso haver pobreza, a velha, para que ocorra este fenómeno, apenas Nova Pobreza. Embora estreitamente relacionados, os três conceitos, podem ser tratados separadamente, possuindo alguma independência, que se contrai ou se aumenta conforme o tema em análise.

A EXCLUSÃO COMO PROBLEMA NA SOCIEDADE MODERNA

A divergência entre as três temáticas, pobreza, desigualdade e exclusão também pode ser entendida enquanto comparadas ao processo de organização da sociedade moderna sobretudo, ao ideal que a alimenta.

A sociedade moderna é concebida como uma sociedade aberta, de grande mobilidade social, em que o indivíduo se estabelece como personagem central. A conceção inicial é a da generalidade, afastando o conceito de exterioridade, originando assim como consequência uma fase importante da história, constituída por duas áreas distintas em colisão. A primeira, a área da igualdade jurídico-política, uma única lei, que considera a igualdade entre os homens. A segunda, a área da desigualdade no acesso aos bens materiais.

A desigualdade social na nossa sociedade tem uma compreensão concreta inerente ao método de concorrência e desenvolvimento, onde se localizam o centro da inovação tecnológica e do dinamismo económico-social. A desigualdade entre os pares numa sociedade de mobilidade aberta implica que a mesma tenha um dinamismo excecional. A mobilidade que caracteriza a sociedade atual faz com que cada um seja encarregado do lugar que detém na dimensão social. Há no entanto uma compreensão negativa porque a desigualdade se opõe à conceção de igualdade. Esta equiparação negativa é mais exteriorizada quando os grupos sociais são colocados a par com o espaço da pobreza absoluta, especialmente, no limiar da sobrevivência.

Assim, a desigualdade dentro de certos limites, como o da carência, não é problema para a sociedade moderna mas na realidade uma das suas componentes básicas.

Se a pobreza relativa é apenas uma consequência da desigualdade, a pobreza absoluta tem outra perceção e a sua existência não cria um problema real para a sociedade moderna, pois a sua presença é sempre percebida como temporal, normal. São pois instantes de grande mudança inovadora tecnológica que provocam o desemprego, e a instabilidade financeira mundial que reduz o rendimento familiar, que levam determinados grupos sociais a situações de carência. Para fazer face a estes instantes, conjuntamente sociais e individuais, a sociedade moderna concebeu mecanismos de proteção que vieram a acabar no Estado do “Bem-Estar” Social (Rosanvalon, 1981).

Contrariamente, a exclusão social, enquanto afastamento dos grupos sociais do espaço igualitário, é um problema para a sociedade moderna, por se opor diretamente ao seu ideal. De certo modo a exclusão social é uma ameaça permanente, conjuntamente, à existência do espaço igualitário entre pares e à ausência da exterioridade característica da nossa sociedade. Por um lado, porque afastada ou impede o acesso de determinados indivíduos no mundo da igualdade, contradizendo a existência de uma lei única, universal e universalizante. Por outro lado, gera um exterior inaceitável para a modernidade, que sempre se pretendeu também universal e universalizante.

A compreensão da exclusão social como um problema para a formação da sociedade moderna, a vontade de um futuro de igualdade para todos, que Montesquieu denominou de tratado da fundação da nossa sociedade, está patente tanto na conduta de repulsa ao nazismo alemão, como ao corporativismo português.

Desta maneira, coloca-se a primeira hipótese geral: a exclusão social como expulsão do espaço igualitário ou o não-reconhecimento dos direitos dos outros (não como discriminação social), considerando-os como não-semelhantes, é uma ameaça à modernidade. Tendo em conta que estamos perante um crescente fenómeno mundial em gera,l a que Portugal não escapa em particular, coloca-se assim a questão a trabalhar – em que consiste a nova exclusão social?

AS MÚLTIPLAS DIMENSÕES DA NOVA EXCLUSÃO

Previamente à entrada na explanação sobre a essência da nova exclusão social é preciso inserir um outro conceito chave do problema. O de que a exclusão social é um facto de múltiplas extensões. Assim iniciamos pelos factos históricos.

Volto a referir que a problemática da exclusão social não é recente. Foucault comprovou devidamente o processo da sua formação e validação no século XVIII.

A xenofobia e o racismo são as duas formas mais percetíveis. Atualmente o fenómeno tem novas manifestações, não plenamente estudadas, hoje em dia a exclusão social está diretamente ligada à sociedade em criar emprego para os seus indivíduos, ou em atribuir um rendimento mínimo que lhes garanta condições básicas de vida.

A par com os fatores históricos, a exclusão social tem causas económicas na sua origem, especialmente no aspeto que tem assumido recentemente. O agravamento do desemprego e da desigualdade social originam grupos sociais que não têm acesso a bens materiais que simbolizam a pertença a determinado grupo em geral, e principalmente que não conseguem inserção no mundo do trabalho. Aqui temos como fatores influentes a revolução científico-tecnológica como uma forma mais abrangente e as crises desde a década de 70 como uma forma mais conjuntural.

A questão que se coloca para nós investigadores é, de que maneira os resultados desta mudança científico-tecnológica não são regressivos, a propagação das novas tecnologias criando novos postos de trabalho que possam atenuar o desemprego. Outros percebem algo mais substantivo, como o pleno emprego sendo impossível, pelo carater distinto desta mudança científico-tecnológica.

Hoje é de todo impossível dizer quem tem razão, os protetores do fator passageiro do desemprego têm argumentos históricos bastante fortes, e os protetores do aparecimento do novo tipo de sociedade, em que o trabalho é uma raridade, têm dados experimentais relevantes.

Não há aqui uma intensão de se entrar numa controvérsia, quer-se apenas apontar que os novos excluídos são catalogados pela situação de desemprego ou pela falta de rendimento suficiente para as suas necessidades básicas de vida, resumindo-se aos novos pobres. Entenderemos o facto da nova exclusão social se introduzirmos uma outra extensão, também importante, a do papel social. Seja, a não inclusão no mundo do emprego é completada com a não inclusão social. No impedimento de readquirir laços perdidos, os sujeitos são levados a elaborar planos de sobrevivência dos mais extremos que se possam imaginar, como assinala Carreteiro (1993), que reconhece planos que intitula como proje tos de doença como a maneira que os excluídos descobrem para serenar o seu tormento e adquirirem alguma atenção social, quanto mais não seja a compaixão que leva no momento à gratificação com uma esmola, recompensando assim um não reconhecimento social.

Conclui-se que a nova exclusão social se edifica num processo:

– Económico, com a exclusão do mundo do emprego;

– Cultural, pelo não-reconhecimento e/ou negação de direitos;

– Social, com a quebra de laços sociais e comunitários.

Se pegarmos nas categorias da cidadania de Marshal, pode dizer-se que, além da exclusão do mundo da economia, os novos excluídos estão em vias de serem excluídos dos direitos sociais e, como consequência, em perigo de restrições de cidadania no espaço político, uma vez que a sua voz e manifestação começa a ser ignorada.

É evidente que tudo o que foi explanado se trata de uma hipótese a ser comprovada, e que em termos internacionais se baseia em dados experimentais elucidativos, tendo em conta que é um processo vivo e mutante carece de investigação permanente para se entender e combater o fenómeno.

A NOVA EXCLUSÃO (SOCIAL)

Baseado assim nestas hipóteses é viável antecipar em que se assenta a nova exclusão social, para se poder entrar em pormenor no âmbito Português. Alerto que estamos perante a formulação de uma hipótese generalista que carecerá de investigação posterior, mas que não poderemos deixar de abordar.

A nova exclusão social resume-se a um processo que relaciona várias grandezas e se desenvolve com a evolução dos tempos e da história. É portanto um processo vivo e mutante a cada segundo que passa, em que nada se pode assegurar do ponto de vista futuro.

Para já, existe o palpite de que o presente processo científico-tecnológico produz reformas de fundo tanto nas relações de trabalho, como na natureza do mundo do emprego. É um problema sobejamente conhecido, são necessários cada vez menos indivíduos de modo a garantir a proliferação dilatada da sociedade. Com este processo tecnológico enceta-se a troca e aumento da inteligência, contrariamente aos processos passados, que unicamente mudavam a energia muscular. Com o automatismo do processo produtivo e a utilização de novos materiais a força humana é cada vez mais desnecessária, cavando assim a desigualdade social em termos de rendimento per capita com consequência direta no estilo de vida dos indivíduos. Estamos perante um novo tipo de desemprego, o estrutural, a que cada país responde de forma diversa, segundo a sua natureza geográfica, cultura empresarial e acima de tudo pela capacidade de avaliação e deliberação dos políticos.

O problema fulcral neste processo é que um número cada vez mais significativo de pessoas se transforma em resíduo da indústria. Não só não têm emprego, logo incapazes de gerar rendimento suficiente, assim como vão perdendo as qualificações necessárias para voltarem a reingressar no processo. Tornam-se pobres com características sociais totalmente modernas, mutando por completo o seu papel social.

Aqui os indivíduos, para além de perderem a sua contribuição produtiva, tornam-se inúteis economicamente e tornam-se apenas num encargo para a sociedade e para o estado.

Com estas mutações sociais galopantes, estes indivíduos, além de discriminados socialmente passam a ser encarados como indivíduos ameaçantes para a sociedade, devido ao do crescimento da violência urbana, que é uma constante, e que a sociedade atribui a quem tem de alguma forma, pela falta de trabalho e rendimentos, tem de garantir a sua sobrevivência e a dos seus.

As formas de intolerância aumentam nas cidades europeias, com o crescimento da xenofobia, assistindo-se a que os desfavorecidos, por motivos diversos, entre os quais o da incompetência política, são gradualmente afastados do espaço social.

O CASO DE PORTUGAL

A particularidade da exclusão social em Portugal está relacionada com a pobreza e com a desigualdade social, tem uma história particular e encontra-se ligada ao processo de constituição do seu espaço de igualdade. A abordagem que farei inicia-se no período após a revolução de 1974.

O pós 25 de Abril e a especificidade da exclusão

Foram desde essa época, três, os grupos da exclusão social em Portugal: os retornados das ex-colónias (negros e brancos) e os imigrantes (Africanos e da Europa de leste), e mais recentemente os novos pobres.

Apesar de não ser regra, a questão da exclusão social, atualmente é abordada, no sentido da cidadania. Isto por o individuo ser reconhecido como um semelhante, alguém coberto de direitos e com o direito de aumentar os seus direitos. Em maneira idêntica ao de Hanna Arendt, porém de modo inverso, em que ser incluído é ter o direito a ter direitos.

No nosso país “todos os cidadãos têm a mesma dignidade social e são iguais perante a lei). É com o processo de integração nacional que a exclusão social se torna um verdadeiro problema social. Primeiro um problema operário. O fim Estado Novo e o populismo são as formas e os instrumentos pelos quais se integra esta população e cujo resultado é uma cidadania excludente, a inserção no mundo do trabalho formal, industrial, possibilita aos indivíduos o reingresso no espaço de cidadãos, mantendo na exclusão os restantes. A cidade, formada de cidadãos, opõe-se ao mundo rural, formado por uma população maioritariamente de excluídos. O facto de migrar passa a ter o significado de aumentar notavelmente as possibilidades de se ter direito a ter direitos, como a proteção social e o acesso às riquezas resultantes do ingresso na indústria.

No entanto o abandono do interior, a não adaptação à cidade e a não oportunidade de ingresso no mundo industrial, resulta da posterior exclusão. O individuo não conhecido no espaço social da sociedade é interpretado como uma ameaça, a quem ocupava já o espaço.

Todas as lutas que marcaram os movimentos sociais em Portugal no PREC, eram-no pela integração social. Os objetivos eram o de reconhecimento, o ter direitos, o ingressar no mundo da cidadania. Em particular, o direito aos bens indispensáveis, o direito a uma vida digna. Seja, o direito à terra pela reforma agrária, a transporte, a casa, a saúde, a educação, a voto e a participação política e organização partidária.

Viveram-se tempos de vitória da luta pela integração social, e da modernização nacional uma vez que não há país moderno sem cidadania, mas também levou ao seu esgotamento económico. Portugal parece conformado não com uma forma de sociedade de parceiros, mas com uma forma plural e dividida onde uns têm mais direitos do que outros, onde a lei base fica aquém das metas a atingir, que não é próprio de um estado de direito moderno.

O PERCURSO DA DESIGUALDADE À EXCLUSÃO.

É curioso verificar que o combate pela integração politica e social sucede conjuntamente com o processo de criação do um mercado económico português, com alta mobilidade social e transformações nas estruturas educacional e ocupacional, sempre segundo as diversas categorias sociais. As mulheres adquiriram uma alta condição na sua posição social. No entanto este processo foi também simultâneo ao aumento da desigualdade social. Ao mesmo tempo em que o País crescia a níveis extraordinários, a desigualdade na estrutura social aumentava. A classe média tem vindo a desaparecer, transformando-se na classe média alta ou em pobreza.

A desigualdade social não deixou de aumentar com o modelo económico em vigor desde 1974, mas a pobreza diminuía na década de 90. Constatou-se, nesta década, uma contradição, a coesão da sociedade dentro de uma desigualdade crescente.

Assim a novidade da década de 90 não foi a diminuição da desigualdade, simultaneamente à diminuição no ritmo de crescimento, mas sim o facto de os grupos de pobres estarem no interior da sociedade havendo uma diminuição da pobreza absoluta. Os grupos de pobres mantiveram-se estacionários ao longo da década. A pobreza deslocou-se cada vez mais do interior para a cidade. O que aconteceu na realidade foi que a sociedade manteve a mesma percentagem de pobres a sua visibilidade é que aumentou, provocando assim a sua nova exclusão.

As bibliografias sobre o mote da injustiça social passaram da problemática da desigualdade social para o da pobreza. Os pobres e a suas condições de vida assim como os seus papéis sociais, tornaram-se os focos da investigação, deixando-se cair a pobreza.

A questão social deslocou-se para o problema da exclusão. Percebida no entanto como o risco intrínseco da formação de uma sociedade de dois rumos, como resultado da crise, desenvolvendo um caos social, e como resultado do raciocínio da politica económica atual, desenvolvendo a separação.

O espaço de representação social torna-se menos favorável aos novos excluídos e o Estado suspende as suas políticas sociais. Restam-lhes duas possibilidades:

– Acomodar-se à situação de carência material, sua e dos seus descendentes, pois as oportunidades de ultrapassar os limites da pobreza tendem a fugir da sua perspetiva de vida;

– Violar a lei isoladamente ou em grupo, para angariar formas de subsistência para si e para os seus.

A violência atual, como sugere Machado (1993), tem contornos de um tipo de urbanidade como resposta de revolta à sociedade que não apresenta soluções, mas, ao invés agrava os mecanismos de expulsão.

CONCLUSÃO

  Assim como hipótese última, temos que o nosso sistema de desenvolvimento pende para um novo tipo de exclusão social, nova exclusão, em que o resultado é a modificação do “novo pobre” no excluído necessário que contribui com o seu rendimento para a sustentação da máquina do estado, e o “velho pobre” no excluído perigoso desnecessário do ponto de vista da economia. Processo em que o “novo pobre” tende a evoluir e adquirir o estatuto de “novo velho pobre” e a herdar toda a condição social do “velho pobre”, ameaçador, do ponto de vista social, pois transgressor das leis.

O excluído moderno é, assim, um grupo social que se deixa de ser economicamente necessário, passa a politicamente incómodo e socialmente ameaçador, podendo, portanto, ser socialmente eliminado. É este último ponto o pilar da nova exclusão social.

Esta propensão, a expulsão da sociedade de consumo, devido à perda de rendimento, antecede a do mundo político e social, que é afinal o impulso para a exclusão da vida. Como consequência o único movimento social em desenvolvimento no país é o do terceiro sector. Poder-se-ia encarar como um sinal de esperança, mas é também um sinal de temor. De esperança porque existe uma forte solidariedade na sociedade portuguesa, e de temor porque os indícios de fecho da sociedade são crescentes. Afinal, o terceiro setor pode ser o derradeiro dos movimentos sociais nascidos do pós 25 de Abril.

Assim, será necessário reter os grupos excluídos internamente. Entre a atual situação e a da separação social, a forma de exclusão mais extrema, existe um longo espaço de tempo a ser percorrido. A dizer que ainda é possível inverter o processo, antes que mais indivíduos caiam na situação de novos pobres e estes na situação de novos excluídos.

O grave da situação não está tanto na sua iminência, mas no facto de que só é resolúvel com uma maneira diferente de encarar a dinâmica social. Hoje em dia, tanto teorias como políticas sociais, que sortiam o efeito de integração simplesmente não resultam no contexto atual.

O aparecimento de cada vez mais novos excluídos é o indício claro de que o tema social mudou de essência. A pouco e pouco assume novos contornos, ainda incertos, de que não se preveem políticas racionais para a sua minimização. Os estados neste momento de grave período de crise teriam todo o interesse em empregar os conhecimentos dos seus sociólogos para a compreensão do processo, em vez da experimentação de politicas elaboradas por perfeitos desconhecedores da realidade social, que tal como já referi, governam as pessoas como se de números se tratassem.

Deixo aqui uma nova hipótese a ser investigada. Um novo fenómeno que entendo ser já um grupo presente na sociedade atual. Aqueles sobre os quais me debrucei no meu anterior ensaio, Nova Pobreza, que de algum modo por motivos que lhes foram alheios perderam parte do rendimento que lhes garantia as condições básicas de vida, e que piorou com a espiral recessiva das políticas sociais e económicas, acabando por perder os seus empregos e por se transformar nos Novos Velhos Pobres.

Quando perceber que, para produzir, precisa obter a autorização de quem não produz nada; Quando comprovar que o dinheiro flui para quem negocia não com bens, mas com favores; Quando perceber que muitos ficam ricos pelo suborno e por influência, mais que pelo trabalho, e que as leis não o protegem deles, mas pelo contrário, são eles que estão protegidos de si; Quando perceber que a corrupção é recompensada, e a honestidade se converte em auto sacrifício; Então poderá afirmar, sem temor de errar, que a sua sociedade está condenada

Ayn Rand, Filósofa russo-americana, 1920

António Evaristo

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